São Paulo e chovia.
As ruas todas Tejos, correndo na minha aldeia,
belas porque terríveis, amadas porque mortais.
Caos, mil lampejos, raios apagando os sinais.
São Paulo e chovia.
O jurisconsulto apressado levava códigos civis.
O executivo de banco corria em seu carro blindado.
O motoboy já cansado cumpria tarefas servis.
São Paulo e chovia.
O jurisconsulto irritado esperava seus papéis,
a minuta da ação civil.
O executivo de banco, falando em seu celular,
atropelou e fugiu.
O motoboy, coitado, morreu ali mesmo na rua,
na rua que agora era um rio.
E quando era São Paulo e chovia
A entrega do motoboy, a minuta da ação civil,
foi rio abaixo, perdida, sumiu.
Perdeu o advogado sua importante ação civil,
ação do mesmo banco do executivo que fugiu.
E era São Paulo e chovia
quando o executivo assassino recebeu a má notícia
perdida a ação, o banco falido, divórcio, vergonha,
Sem emprego, em depressão, sem saída, sem perdão.
E em São Paulo chovia
quando a justiça se fez (poética posto que poema).
O executivo falido, antes famoso playboy,
sem amigos e pobre, o assassino virou motoboy.
E como em São Paulo chovia
uma chuva atemporal, mágica, quente e fatal,
numa curva do tempo, numa ironia acidental
escorregou o executivo, nosso assassino vil,
ele agora era o motoboy, e corria contra o tempo
para entregar a minuta, a minuta da ação civil.
São Paulo e chovia.
As ruas todas Tejos, correndo na minha aldeia,
belas porque terríveis, amadas porque mortais.
Caos, mil lampejos, raios apagando os sinais.