sábado, abril 25, 2009

Corpo Todo Texto

Este sorriso que eu adivinho,
nesta boca que eu tanto desejo,
deste rosto seu que eu nunca vejo,
palavras onde perco meu caminho.

E pelas madrugadas eu definho,
as frases que por meu dia eu planejo
meus Páris roubando o teu beijo,
confluindo em verbo meu carinho.

Mulher de letras, mulher descarnada,
que feitiço maligno de horror
lançaste tu em minha alma danada?

E como explicar este tremor,
como posso fugir desta cilada,
teu corpo todo texto, meu amor.

domingo, abril 05, 2009

Outono

Se houve um Verão, morreu nas folhas.
Se houve uma chuva, morreu no vento.
As mãos nervosas, as palavras tolas,
Perderam-se sob o olhar atento
E a lâmina afiada das Moiras.
Neste Abril cruel, seco, sangrento,
Despedaçam-se em pó as escolhas,
O gato morre sob um céu cinzento.
Neste canal estreito, o Destino,
Não houve barco para irmos juntos.
Seguimos, passageiros clandestinos,
Sonhando outras terras, outros mundos.
Estação calculista, fútil, fria,
O Outono assassina a alegria.

sexta-feira, março 27, 2009

A Balada da Princesa Improvável

A bela princesa improvável,
pós-feudalismo reinava sozinha,
seu reino perfeito de tão inviável,
seu castelo de cartas, sua casinha.

Mas sofria a princesa improvável
de mal depressivo moderno
sofria a donzela insondável
a maldição de um tédio eterno.

E quis um deus mais irônico,
um destes deuses de jardim,
pregar uma peça na princesa,
acordando um cavaleiro atônito.

Sabendo as fraquezas da princesa,
escolheu o deus jardineiro
a dedo um estranho cavaleiro,
para tentar a mulher indefesa.

Eis o bravo cavaleiro imóvel,
em seu fogoso alazão de pau,
correndo a acudir a princesa,
a resgatá-la do tédio mortal.

Mas ora, a princesa improvável,
cansada de sua triste sorte,
se enamora do herói imprestável,
e jura amá-lo até a morte.

E no assustado cavaleiro imóvel,
esquecido do gosto da vitória,
arde logo um fogo incontrolável,
tão óbvio o final desta história.

E neste conto de fadas revisto,
neste tempo tão pós-moderno
no reino inviável eterno,
reina este casal nunca visto.

Ela o vulcão, ele a montanha,
Ela o fogo indomável, ele o lago gentil.
A terrível e bela Isabel de Espanha
e um Pedro da Rússia, porém mais sutil.

E lá no quintal, perto do chafariz,
no pomar do castelo de cartas,
vive um risonho deus das matas,
cúmplice do poeta neste final feliz.

Era São Paulo e chovia

São Paulo e chovia.
As ruas todas Tejos, correndo na minha aldeia,
belas porque terríveis, amadas porque mortais.
Caos, mil lampejos, raios apagando os sinais.

São Paulo e chovia.
O jurisconsulto apressado levava códigos civis.
O executivo de banco corria em seu carro blindado.
O motoboy já cansado cumpria tarefas servis.

São Paulo e chovia.
O jurisconsulto irritado esperava seus papéis,
a minuta da ação civil.
O executivo de banco, falando em seu celular,
atropelou e fugiu.
O motoboy, coitado, morreu ali mesmo na rua,
na rua que agora era um rio.

E quando era São Paulo e chovia
A entrega do motoboy, a minuta da ação civil,
foi rio abaixo, perdida, sumiu.
Perdeu o advogado sua importante ação civil,
ação do mesmo banco do executivo que fugiu.

E era São Paulo e chovia
quando o executivo assassino recebeu a má notícia
perdida a ação, o banco falido, divórcio, vergonha,
Sem emprego, em depressão, sem saída, sem perdão.

E em São Paulo chovia
quando a justiça se fez (poética posto que poema).
O executivo falido, antes famoso playboy,
sem amigos e pobre, o assassino virou motoboy.

E como em São Paulo chovia
uma chuva atemporal, mágica, quente e fatal,
numa curva do tempo, numa ironia acidental
escorregou o executivo, nosso assassino vil,
ele agora era o motoboy, e corria contra o tempo
para entregar a minuta, a minuta da ação civil.

São Paulo e chovia.
As ruas todas Tejos, correndo na minha aldeia,
belas porque terríveis, amadas porque mortais.
Caos, mil lampejos, raios apagando os sinais.

quinta-feira, março 19, 2009

Lamento

Quando eu a quero séria, profunda,
ela gargalha alto na minha cara,
se faz engraçada, se faz piada,
se faz fútil, criança, insensata.

Quando eu a quero casta, pura,
ela sai quase nua pelas ruas,
persegue homens e mulheres,
como louca a beijar outras bocas.

Quando eu a quero bem rimada,
alexandrina, heróica ou sáfica,

ela logo se faz branca, livre, dura,

acha a primeira cerca e pula.


Quando eu a quero doce, grata,
ela rápido se faz dama distante,
se enfeita de mil e uma maldades,
me apunhala, me tira sangue.

Quando eu a quero plena, agora,
ela me ilude, me escapa, some,
foge na noite, escondida da lua,
me deixa arrasado, calado, insone.

Quando eu me irrito, já não a quero,
ela vem e se insinua, me provoca,
fácil me põe sonhando acordado,
fácil de novo seu namorado.

E quando eu penso nela assim,
já nem sei bem do que falo,
se desta poesia que eu faço,
ou se então, mulher cruel, de ti.

quinta-feira, março 05, 2009

Sobre a vara

I.
O assovio agudo da vara,
cortando a ar como faca,
é o som que antecipa a dor,
dói o ouvido antes da carne.

Qual sibilar da serpente
que antecede a dentada,
o som da vara caindo
já carrega a pele rasgada.

A marca que deixa a vara
na pele, escura ou clara,
mais roxa na pele escura,
vermelha na pele clara,

trás a lembrança da dor,
carrega a força da vara,
por dias ou por semanas,
faz lembrar a dor da vara.

Entre o assovio e a marca,
entre o vento e o rescaldo,
há o centro da tempestade
quando a pele sente a vara.

É só um instante, um nada
uma explosão controlada,
quando a vara qual abelha,
deposita a sua picada.

Se o assovio trás o medo,
Se a marca trás a saudade,
é o choque de pele e vara
o momento da verdade.

A vara ao tocar a pele
une dois em apenas um
a mão que segura a vara
e corpo que a apara.

E o choque desta explosão
incendeia como se palha
tanto o corpo de quem bateu
como o que recebe a vara.

II.
Esta vara não é o Mal,
a dor que se extrai dela
não é só dor dura na carne,
mas dor funda na alma.

A vara não é o Consolo,
que o deus do deserto trazia,
que na paixão do filho morto
transmutou-se em alegoria.

A vara não é a Culpa,
a expiação dos pecados,
perdão que quem a empunha
concede a um corpo prostrado.

E a vara não é o Acaso,
este deus novo e correto,
pois a vara escolhe o corpo
e o corpo escolhe a vara.

Resta somente um fato,
o lado mais forte da vara
não é a mão que a empunha
mas o corpo que a apara.

O lado mais forte da vara
não é o da dor causada,
pois não sente quem a causa,
só vê o seu resultado.

O lado mais forte da vara
é o do corpo por onde anda
a dor funda da picada,
a dor mais dura e amarga.

Pois quem controla a vara
não é mão que a empunha
mas sempre quem a apara
e carrega a pele marcada.

Então se não é tal vara
a expressão mais acabada
do Poder de quem se entrega
sobre quem faz descer a vara.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Suave poema intrigado

Isto é um poema, e temos um problema,
eu e você: porque você me lê?

Lembra, eu não sou o poeta,
a quem você pode ou não conhecer,
de quem você talvez goste
e que talvez goste de você.


Para todos os efeitos,
pouco importa que você o conheça, que ele conheça você.
Eu não sou ele, e é a mim que você lê. Por que?

Poema tagarela, você deve estar pensando.
Por que se importa o poema com as razões de quem o lê?
Talvez, como eu disse, por conhecer o poeta,
(que, impertinente e chato, pediu para você ler),
mas, mais provável, por tédio, acidente ou distração,
um lance de dados (note a citação), uma busca extraviada,
um link clicado sem nenhuma intenção
(e vou eu me achando virtual,
imaterial, texto etéreo em tela distante,
sem livro ou cópia, qualquer papel
ou meio físico que me suporte).

Mas voltando ao ponto, a minha razão:
não sei para onde ir,
depende de você.
Não muito, talvez, pois virtual ou não,
o texto está fixo,
preso ao instante
em que o poeta escreveu-me e me deu por acabado.

Mas posso ser diferente para cada leitor.
Claro, posso ser indiferente,
alçado aos céus da língua,

inacessível, inalcançavel.
Mas vê que não sou, sou algo atento,
não diria popular, já seria muito,
mas não me entronizo, enfim,
na antiga torre de marfim
(é, a pobre moça morta cedo).

Me preocupa (um pouco)
o bem estar do incauto que me tem nas mãos
(na tela, na mente, quem sabe no coração).

Não sou um soneto, nem uma elegia,
nem épico maior,
mas guardo alguma rima.
Que posso perder, se for este seu desejo.
Ser folha de grama (de novo, percebe, falo ex-cathedra),
ser caso pensado de ritmo quebrado
(note a ironia, não o faço, só o falo.
Mas para manter o pudor
que quem sabe trás o leitor
esqueçamos aqui do falo).

Mas minha questão não é meu não ser, mas o vir a ser.
Que é da poesia? Que é do poema?
Que é de quem lê ou escreve estas linhas?
Para onde esta língua, esta arte, esta vida?
Não é, digo logo, sonetos sem fim sobre Alexandria
(outra vez, não me emendo, eu só emendas).
Nem tampouco, penso eu,
discutir hífens, dobras, tremas,
morrer nas mãos tortas da academia.

Talvez tudo já tenha passado,
todos os poemas,

certos ou errados,
tenham já sido escritos,
falados ou pensados,
já estejam até publicados.

Mas isto quereria duas inverdades:
você saber tudo o que eu vou dizer,
e eu saber porque você me lê.

E todas estas voltas,
perguntas sem respostas,

de mim para você,
que gasta um monte de minutos

com um poema incauto, intrigado,
palavras sem rumo, destino ou intento.
Mas, me ensinaram, perguntas são reais,
respostas, só pétalas ao vento, de flores do mal
(percebe, que erudição? Sou muito lido, eu poema).


Mas para terminar mais suave,
(agradecendo a Sthepen pela idéia roubada),
veja o que faço, o que posso,
como expresso algum leve senso,
me desfaço em versos mais retos,
só para você que me leu
não dizer que só perdeu tempo:


Quatro sacerdotes persas saíram um dia,
perseguindo um cometa deserto afora.
Três acharam um menino e lhe deram presentes
(que a mãe do rebento aceitou com espanto
e usou com carinho para ocultar o suposto profeta).

O quarto viajante perdeu-se do bando,
chegando à Índia, encontrou um Buda, um Buda criança.
Levava este mago nada de sólido,
só melancolia, muita culpa e uma escolha:
"Morres agora, feliz, ou cumpre toda a história?"

E o Buda criança, ciente do erro,
de navegação, de país, de religião
(e, principalmente, de intenção) ,

sorrindo se sentou e respondeu:

"A história se cumpriu sozinha, eu vejo.
Come comigo enquanto a noite cai,
e dorme enquanto a melancolia se esvai.
Ao amanhecer fazemos chá dessa sua culpa."

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

18. Segundo Gato

Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
William Blake


Gato, gato, que brilhava claro,

em selvagens vastidões.

Hoje, gato, que de ti resta
?
Só um rastro na floresta,

só a lembrança da promessa.


As noites na floresta escura

(metáfora da língua mais pura),

amanheceram na luz errada.
As árvores que protegiam

são torres que te vigiam.


Hoje, gato, da floresta,

resta pouco, quase nada
.
Os troncos que eram floresta
são hoje móveis de sala,

são hoje portas fechadas.


Foge, gato, foge, gato,

da planície, da savana.

Nessas terras cultivadas

(metáfora da língua domada)

mora a vontade calada.

Gato, gato, que brilhava claro,

em selvagens vastidões.

Hoje, gato, que a ti resta
?
Só fugir pela floresta (pelo que dela resta),

com a lembrança da promessa.

domingo, fevereiro 15, 2009

Dedo Médio

Adília, que lia Barthes, tinha escrito,
e Camila tinha aprendido
que era o dedo médio
o dedo que devia usar
(Camila que não lia Barthes
tinha lido Adília por acaso
em um post de blog
de uma amiga de ginásio).

Camila que nem lia poesia,
Camila que nem escrever escrevia,
Camila agora todo dia lia
aquela estranha história etérea,
de sedução paixão e (por que não?) tanto tesão,
que vinha de madrugada,
de um estranho só nome,
e onde a heroína era ela.

lia e se molhava,
lia e se derretia,
lia e se tocava,
(com o dedo médio,
como tinha ensinado a Adília).

e para o estranho só nome a Camila,
que nem escrever escrevia,
agora escrevia,
coisas que nem para si mesma dizia,
coisas que nem sabia que queria,

se tocando enquanto escrevia
(com o dedo médio,
como tinha ensinado a Adília).

E quando o marido puxou o gatilho,
foi com o indicador,
dedo de causar dor,
não com o dedo médio,
dedo de espantar o tédio.

Tentativa de homicídio,

dizia o furo de bala
que matara o monitor.
Mas, se perguntava o inspetor,
homicídio de Camila
Capitu virtual sem estilo
ou do estranho sem nome,
seu amor?

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Soneto com comentário

No fim do 19 todo mundo fazia sonetos
Menos um ou outro, talvez.
No início do 20 faziam ainda sonetos,
mas já havia a pessoa em português.

No fim do 20 ninguém fazia nada,
Menos um ou outro, talvez,
Que faziam sonetos também,
para esquecer a pessoa e os outros, de vez.

Que se faz hoje em dia na lida?
Menos um ou outro talvez, povo
que nem conhecemos ainda

Ninguém faz nada de novo, de novo.
Eu faço sonetos para mulheres lidas lindas
mas eu sou poeta(?) velho criança ovo.

(eu poeta(?) velho não cresço
nem saio da casca do ovo
mas (dis)traio um pouco o soneto,
em livre irregular aberto,
com comentário e alguma rima
e me finjo de povo da lida
só para agradar mulheres lidas
e lindas).

Não pise na faixa amarela

(um poema dramático em seis atos)

a laura n.,
que arranca poemas
do limbo da minha inércia
a golpes de picareta


"If the quantum mechanical formalism is correct, then the system consisting of a pair of entangled electrons cannot satisfy the principle of local realism."
Teorema de Bell

1. Quantum Particle
A mãe sempre ensinou, sempre puxava a mão dela com força, gritava, brigava, nas escadas rolantes do shopping dizia que ia prender o sapato e ficar sem o pé. E assim foi pelos anos, respeitando os avisos, parando nos sinais, mantendo o pé, evitando águas mais fundas. O caso é que depois de uma vida inteira obedecendo as faixas, os sinais, os avisos, as admoestações, os tabus, os princípios judaico-cristãos. Uma vida inteira vírgula porque ela ainda era nova, mas vá lá, uma vida inteira obedecendo todas estas regras acumuladas ao longo da nossa vida, da vida dos outros, do que os vizinhos vão achar, do que o guarda vai multar, do que sua avó não pode saber, do que seu pai tem um enfarte se descobrir, naquele dia, sabe deus porque, ela deu um passo pequeno, miúdo o passo, como eram seus passos na vida. Naquele dia ela cruzou o sinal, ignorou os avisos, rompeu o tabu, esqueceu dos mandamentos, naquele dia ela pisou na faixa amarela.

2. Quantum Leap
Os alto-falantes começaram imediatamente a ralhar com o sujeito ainda oculto, "Não pise na faixa amarela". Na plataforma já entupida de todas as horas de terça-feira, de toda aquela gente que tinha passado o dia indo e vindo e agora queria voltar, na plataforma as pessoas se olhavam desconfiadas. Mas só quem estava muito perto dela ou muito perto dos trilhos, como eu, podia ver o destinatário do aviso, "Não pise na faixa amarela". Uma mulher fez menção de puxá-la pela manga. Isto talvez tenha sido a gota d'água, ela se desvencilhou daquela mão genericamente materna e deu outro pequeno passo. Tinha agora os dois pés firmemente assentados sobre aquela fronteira dourada entre o mundo e o sonho, entre a vida e o nada, entre a multidão e trem. "Não pise na faixa amarela", gritava a gravação mas agora em outro tom, uma nuance bem leve, quase imperceptível, de desespero.

3. Two Particle System
Era uma plataforma curta, com uma entrada só, no meio. Eu estava à direita, ela à esquerda, se equilibrando sobre a metáfora. Eu vi então os homens de preto chegando afoitos, correndo, tentando nadar no mar de gente. "Não pise na faixa amarela", a gravação gritou triunfal, qual o toque do clarim anunciando a chegada da cavalaria. Não sei bem porque, ou eu achei aquilo desproporcional ou só precisava de um empurrão ou não estava pensando direito ou sei lá o que. Mas sei que, do outro lado da plataforma, dei um passo adiante e me plantei também sobre aquele horizonte de eventos amarelos. Meu ato confundiu muito os homens de preto, não sabiam se iam para a esquerda salvar a mocinha ou se iam para a direita enfrentar quem, o herói? Ou o vilão? "Não pise na faixa amarela" O tom de desespero agora era acentuado.

4. Entanglement
Neste momento, imagine a cena, eu e ela estávamos sós, separados da multidão e fora do trem, duas impossibilidades pairando sobre os paradigmas firmes da estação. Neste instante, eu dizia, nossos olhares se encontraram, livres da multidão, pisando em ovos, por assim dizer, ovos quebrados talvez. Através daqueles vinte metros nós nos víamos claros, inteiros. A multidão horrorizada e os seguranças desconcertados só viam nossas costas. Para além do espaço, num "entanglement" improvável, nossas mãos se entrelaçaram, nossas vidas se entrelaçaram, nossas escolhas se entrelaçaram. Sorrimos e demos os dois, ao mesmo tempo, um pequeno passo adiante, para além da última fronteira. Quatro pés agora pisavam o piso cinzento do território proibido. "Não pise na faixa amarela". Confundidos os homens de preto, derrubada a muralha invisível, cruzada a barreira intransponível, nada restava senão um tom resignado, tentando conter os danos, evitar mais problemas, manter a autoridade e a esperança, acalmar o nervosismo tangível dos futuros passageiros.

5. Quantum States
O vento artificial do túneis e um ronco distorcido anunciavam a chegada iminente do trem seguinte. Nos olhamos, indecisos. Íamos entrar em vagões diferentes, nunca mais nos ver talvez. O espaço entre o amarelo e o negro era estreito demais para uma aproximação segura. "Não pise na faixa amarela" e agora o aviso indiferente não podia mais ser para nós. A decisão era clara, entrar no trem, o que seria inevitável, bastava ficarmos parados e a multidão faria isto por nós. O acaso decidiria o final da história. Ou aproveitar a mãos dadas, o entrelaçamento quântico que nos fazia um, iguais, calcular o momento exato, escolher o instante perfeito, nossos relógios já sincronizados pelos meandros da Física e, contra qualquer lógica externa ao sistema de nós dois, fechar os olhos, distender os músculos, respirar fundo, flexionar os joelhos. E pular. Este final seria também outra decisão do acaso. Mas seria, de alguma forma, o nosso acaso.

6. Schrödinger's Cat
Sistemas quânticos complexos são, como eu diria, muito complicados. Calcular as probabilidades de movimento de tantos átomos é o trabalho de supercomputadores, de físicos entediados, de universos exemplares. Não de poetas. Nunca de poetas. Este poema deixa então seus personagens nesta estranha condição, gatos de Schrödinger dentro da caixa, nem vivos nem mortos, nem embarcados nem suicidados, nem distantes nem enamorados. Apenas um sistema de partículas estranhamente entrelaçadas, em estado indeterminado.

Florbela Espanca

Dizem que sua poesia era triste
porque a abandonaram,
morrendo ou partindo,

pela ordem,
uma mãe, um pai, dois maridos e um irmão.

Além de dois fetos.

Dizem que se matou
porque a abandonaram,
morrendo ou partindo,

pela ordem,

aqueles todos citados acima.

E os dois fetos.

Mas pode bem ter sido o contrário.
Morreram e partiram porque
a luz estrelar da poesia triste
contida naquela mulher
os matou ou assustou.

Então ela tomou Veronal demais
para ver se afinal
a luz estrelar da sua poesia triste
a deixava dormir em paz.

Mas que rematada tolice,
tentar adivinhar a poesia
nas desventuras da poeta!
Pobres das poetas felizes,
só fizeram o kitsch simplório?

(e fazia sonetos,

aquela mulher clara e estrelar.
E que sonetos. Ouviu, chata?)

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

de um prefácio de Agamben

Levar a língua
onde me faltem palavras.
Extirpar do significante
todo significado, seu sangue.
Remover do significante
todo sentido semiótico, sua pele.

E no mais absoluto silêncio,

no logos caótico restante,
imerso no Ser invisível,
dizer o indizível.