quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Suave poema intrigado

Isto é um poema, e temos um problema,
eu e você: porque você me lê?

Lembra, eu não sou o poeta,
a quem você pode ou não conhecer,
de quem você talvez goste
e que talvez goste de você.


Para todos os efeitos,
pouco importa que você o conheça, que ele conheça você.
Eu não sou ele, e é a mim que você lê. Por que?

Poema tagarela, você deve estar pensando.
Por que se importa o poema com as razões de quem o lê?
Talvez, como eu disse, por conhecer o poeta,
(que, impertinente e chato, pediu para você ler),
mas, mais provável, por tédio, acidente ou distração,
um lance de dados (note a citação), uma busca extraviada,
um link clicado sem nenhuma intenção
(e vou eu me achando virtual,
imaterial, texto etéreo em tela distante,
sem livro ou cópia, qualquer papel
ou meio físico que me suporte).

Mas voltando ao ponto, a minha razão:
não sei para onde ir,
depende de você.
Não muito, talvez, pois virtual ou não,
o texto está fixo,
preso ao instante
em que o poeta escreveu-me e me deu por acabado.

Mas posso ser diferente para cada leitor.
Claro, posso ser indiferente,
alçado aos céus da língua,

inacessível, inalcançavel.
Mas vê que não sou, sou algo atento,
não diria popular, já seria muito,
mas não me entronizo, enfim,
na antiga torre de marfim
(é, a pobre moça morta cedo).

Me preocupa (um pouco)
o bem estar do incauto que me tem nas mãos
(na tela, na mente, quem sabe no coração).

Não sou um soneto, nem uma elegia,
nem épico maior,
mas guardo alguma rima.
Que posso perder, se for este seu desejo.
Ser folha de grama (de novo, percebe, falo ex-cathedra),
ser caso pensado de ritmo quebrado
(note a ironia, não o faço, só o falo.
Mas para manter o pudor
que quem sabe trás o leitor
esqueçamos aqui do falo).

Mas minha questão não é meu não ser, mas o vir a ser.
Que é da poesia? Que é do poema?
Que é de quem lê ou escreve estas linhas?
Para onde esta língua, esta arte, esta vida?
Não é, digo logo, sonetos sem fim sobre Alexandria
(outra vez, não me emendo, eu só emendas).
Nem tampouco, penso eu,
discutir hífens, dobras, tremas,
morrer nas mãos tortas da academia.

Talvez tudo já tenha passado,
todos os poemas,

certos ou errados,
tenham já sido escritos,
falados ou pensados,
já estejam até publicados.

Mas isto quereria duas inverdades:
você saber tudo o que eu vou dizer,
e eu saber porque você me lê.

E todas estas voltas,
perguntas sem respostas,

de mim para você,
que gasta um monte de minutos

com um poema incauto, intrigado,
palavras sem rumo, destino ou intento.
Mas, me ensinaram, perguntas são reais,
respostas, só pétalas ao vento, de flores do mal
(percebe, que erudição? Sou muito lido, eu poema).


Mas para terminar mais suave,
(agradecendo a Sthepen pela idéia roubada),
veja o que faço, o que posso,
como expresso algum leve senso,
me desfaço em versos mais retos,
só para você que me leu
não dizer que só perdeu tempo:


Quatro sacerdotes persas saíram um dia,
perseguindo um cometa deserto afora.
Três acharam um menino e lhe deram presentes
(que a mãe do rebento aceitou com espanto
e usou com carinho para ocultar o suposto profeta).

O quarto viajante perdeu-se do bando,
chegando à Índia, encontrou um Buda, um Buda criança.
Levava este mago nada de sólido,
só melancolia, muita culpa e uma escolha:
"Morres agora, feliz, ou cumpre toda a história?"

E o Buda criança, ciente do erro,
de navegação, de país, de religião
(e, principalmente, de intenção) ,

sorrindo se sentou e respondeu:

"A história se cumpriu sozinha, eu vejo.
Come comigo enquanto a noite cai,
e dorme enquanto a melancolia se esvai.
Ao amanhecer fazemos chá dessa sua culpa."

Um comentário:

laura n. disse...

então, quem será que te intriga? rs. apareça, bjk