quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Não pise na faixa amarela

(um poema dramático em seis atos)

a laura n.,
que arranca poemas
do limbo da minha inércia
a golpes de picareta


"If the quantum mechanical formalism is correct, then the system consisting of a pair of entangled electrons cannot satisfy the principle of local realism."
Teorema de Bell

1. Quantum Particle
A mãe sempre ensinou, sempre puxava a mão dela com força, gritava, brigava, nas escadas rolantes do shopping dizia que ia prender o sapato e ficar sem o pé. E assim foi pelos anos, respeitando os avisos, parando nos sinais, mantendo o pé, evitando águas mais fundas. O caso é que depois de uma vida inteira obedecendo as faixas, os sinais, os avisos, as admoestações, os tabus, os princípios judaico-cristãos. Uma vida inteira vírgula porque ela ainda era nova, mas vá lá, uma vida inteira obedecendo todas estas regras acumuladas ao longo da nossa vida, da vida dos outros, do que os vizinhos vão achar, do que o guarda vai multar, do que sua avó não pode saber, do que seu pai tem um enfarte se descobrir, naquele dia, sabe deus porque, ela deu um passo pequeno, miúdo o passo, como eram seus passos na vida. Naquele dia ela cruzou o sinal, ignorou os avisos, rompeu o tabu, esqueceu dos mandamentos, naquele dia ela pisou na faixa amarela.

2. Quantum Leap
Os alto-falantes começaram imediatamente a ralhar com o sujeito ainda oculto, "Não pise na faixa amarela". Na plataforma já entupida de todas as horas de terça-feira, de toda aquela gente que tinha passado o dia indo e vindo e agora queria voltar, na plataforma as pessoas se olhavam desconfiadas. Mas só quem estava muito perto dela ou muito perto dos trilhos, como eu, podia ver o destinatário do aviso, "Não pise na faixa amarela". Uma mulher fez menção de puxá-la pela manga. Isto talvez tenha sido a gota d'água, ela se desvencilhou daquela mão genericamente materna e deu outro pequeno passo. Tinha agora os dois pés firmemente assentados sobre aquela fronteira dourada entre o mundo e o sonho, entre a vida e o nada, entre a multidão e trem. "Não pise na faixa amarela", gritava a gravação mas agora em outro tom, uma nuance bem leve, quase imperceptível, de desespero.

3. Two Particle System
Era uma plataforma curta, com uma entrada só, no meio. Eu estava à direita, ela à esquerda, se equilibrando sobre a metáfora. Eu vi então os homens de preto chegando afoitos, correndo, tentando nadar no mar de gente. "Não pise na faixa amarela", a gravação gritou triunfal, qual o toque do clarim anunciando a chegada da cavalaria. Não sei bem porque, ou eu achei aquilo desproporcional ou só precisava de um empurrão ou não estava pensando direito ou sei lá o que. Mas sei que, do outro lado da plataforma, dei um passo adiante e me plantei também sobre aquele horizonte de eventos amarelos. Meu ato confundiu muito os homens de preto, não sabiam se iam para a esquerda salvar a mocinha ou se iam para a direita enfrentar quem, o herói? Ou o vilão? "Não pise na faixa amarela" O tom de desespero agora era acentuado.

4. Entanglement
Neste momento, imagine a cena, eu e ela estávamos sós, separados da multidão e fora do trem, duas impossibilidades pairando sobre os paradigmas firmes da estação. Neste instante, eu dizia, nossos olhares se encontraram, livres da multidão, pisando em ovos, por assim dizer, ovos quebrados talvez. Através daqueles vinte metros nós nos víamos claros, inteiros. A multidão horrorizada e os seguranças desconcertados só viam nossas costas. Para além do espaço, num "entanglement" improvável, nossas mãos se entrelaçaram, nossas vidas se entrelaçaram, nossas escolhas se entrelaçaram. Sorrimos e demos os dois, ao mesmo tempo, um pequeno passo adiante, para além da última fronteira. Quatro pés agora pisavam o piso cinzento do território proibido. "Não pise na faixa amarela". Confundidos os homens de preto, derrubada a muralha invisível, cruzada a barreira intransponível, nada restava senão um tom resignado, tentando conter os danos, evitar mais problemas, manter a autoridade e a esperança, acalmar o nervosismo tangível dos futuros passageiros.

5. Quantum States
O vento artificial do túneis e um ronco distorcido anunciavam a chegada iminente do trem seguinte. Nos olhamos, indecisos. Íamos entrar em vagões diferentes, nunca mais nos ver talvez. O espaço entre o amarelo e o negro era estreito demais para uma aproximação segura. "Não pise na faixa amarela" e agora o aviso indiferente não podia mais ser para nós. A decisão era clara, entrar no trem, o que seria inevitável, bastava ficarmos parados e a multidão faria isto por nós. O acaso decidiria o final da história. Ou aproveitar a mãos dadas, o entrelaçamento quântico que nos fazia um, iguais, calcular o momento exato, escolher o instante perfeito, nossos relógios já sincronizados pelos meandros da Física e, contra qualquer lógica externa ao sistema de nós dois, fechar os olhos, distender os músculos, respirar fundo, flexionar os joelhos. E pular. Este final seria também outra decisão do acaso. Mas seria, de alguma forma, o nosso acaso.

6. Schrödinger's Cat
Sistemas quânticos complexos são, como eu diria, muito complicados. Calcular as probabilidades de movimento de tantos átomos é o trabalho de supercomputadores, de físicos entediados, de universos exemplares. Não de poetas. Nunca de poetas. Este poema deixa então seus personagens nesta estranha condição, gatos de Schrödinger dentro da caixa, nem vivos nem mortos, nem embarcados nem suicidados, nem distantes nem enamorados. Apenas um sistema de partículas estranhamente entrelaçadas, em estado indeterminado.

2 comentários:

laura n. disse...

isso: beijo

Bia Bologna disse...

PC, você é muito bom, mas muito bom mesmo. Que surpresa. Você é fera. Manda para uns editores, se inscreve em alguns concursos, sei lá...